Quando robôs entram no supermercado

Almas artificiais, culturas reais

Um robô humanóide entra em um supermercado. No Japão, mil unidades do mesmo modelo esgotam em sessenta segundos. Na Escócia, o aparelho é removido em uma semana por ser “impopular com clientes”. O produto é idêntico. As reações, opostas. A explicação para essa divergência é mais complexa do que uma simples dicotomia cultural sugeriria.

A pesquisa empírica registra diferenças significativas. Quando Castelo e Sarvary (2022) pediram a americanos e japoneses que avaliassem se robôs possuem “alma”, a diferença média foi de quatro vezes: 0,71 para os primeiros contra 2,93 para os segundos. Dados agregados como esses indicam tendências, não leis universais. Dentro de cada cultura existe variação considerável — gerações mais jovens tendem a diferir das mais velhas, contextos urbanos diferem de rurais, e a experiência individual modula qualquer predisposição coletiva. Ainda assim, o padrão estatístico é consistente o suficiente para merecer explicação.

Uma hipótese forte, embora não exclusiva, aponta para cosmologias de fundo.

O pensamento ocidental, moldado pela tradição judaico-cristã, tende a estabelecer uma fronteira entre humano e máquina. O conceito de imago Dei posiciona o ser humano como categoricamente singular: dotado de alma, consciência, capacidade moral. Máquinas, nessa matriz, estão fora dessa categoria por definição. Criar algo “à semelhança humana” flerta com transgressão. Frankenstein (1818) codificou esse receio em arquétipo literário que o cinema amplificou por décadas — de HAL 9000 a Skynet, de Ultron a Ex Machina. Isso não significa que o Ocidente produza apenas narrativas distópicas: Wall-E, Baymax e Her demonstram que representações positivas existem. A questão é de proporção e dominância, não de exclusividade.

A matriz japonesa opera com outras premissas. O xintoísmo inclui animismo: a crença de que espíritos habitam todas as coisas, incluindo objetos fabricados. Se pessoas são “filhos da natureza”, máquinas criadas por pessoas seriam, na formulação de um pioneiro da robótica local, “netos da natureza”. O budismo reforça a ausência de hierarquia ontológica rígida entre categorias de existência. Osamu Tezuka, criador de Astro Boy em 1952, articulou: japoneses não traçam distinção categórica entre o homem como criatura superior e o mundo ao redor. Mas seria erro ignorar que o Japão também produziu Akira, Ghost in the Shell e Evangelion — obras que exploram ansiedades tecnológicas. A diferença não está na ausência de preocupação, e sim no tom: questões filosóficas sobre identidade (“o que define humanidade?”) predominam sobre questões existenciais de sobrevivência (“como escapar da rebelião das máquinas?”).

A Ásia não é bloco único. A China ocupa posição intermediária: pragmatismo confuciano combinado com abertura a inovação tecnológica. Pesquisa de Folk, Wu e Heine (2025) encontrou participantes chineses com maior tendência a antropomorfizar que americanos e japoneses. A Coreia do Sul, com a maior densidade robótica do mundo (93 robôs por mil trabalhadores industriais), adota abordagem funcionalista — robôs como “ferramentas” em vez de “parceiros”. O Oriente também tem suas variações internas.

Cosmologia, porém, não é a única variável em jogo.

Outras explicações competem pela atenção. Exposição prévia: o Japão convive com robótica industrial desde os anos 1980, e familiaridade pode gerar conforto independentemente de filosofia. Confiança institucional: japoneses tendem a confiar mais em corporações que americanos (Edelman Trust Barometer registra essa diferença), o que afeta aceitação de tecnologias corporativas. Estrutura social: culturas com orientação mais coletivista aceitam com maior facilidade tecnologias de monitoramento e automação. A hipótese cosmológica é plausível, mas seria imprudente tratá-la como causa única quando variáveis confundidoras não foram controladas experimentalmente.

O que os dados experimentais mostram com mais segurança é que o “uncanny valley” — a repulsa que robôs quase-humanos provocam — tem profundidades diferentes conforme a cultura. Americanos experimentam queda de conforto duas vezes maior que japoneses quando confrontados com robôs altamente humanóides. Quando robôs exibem emoções, americanos ficam menos confortáveis; japoneses, o oposto. O mesmo estímulo, processado por sistemas cognitivos diferentes, produz reações inversas. Mas mesmo aqui cabe cautela: a variação individual dentro de cada cultura frequentemente excede a variação média entre culturas.

O mercado traduz essas tendências em sucessos e fracassos.

Sony lançou o AIBO e esgotou em vinte minutos no Japão. No mercado americano, precisou reposicionar o produto para entusiastas de tecnologia, enfatizando funcionalidade em vez de companhia. O projeto CARESSES, colaboração entre União Europeia e Japão, demonstrou que robôs com “bases de conhecimento cultural” — capazes de adaptar comportamento ao contexto do usuário — produzem melhora mensurável em saúde mental e redução de solidão. A adaptação cultural não é cosmética; tem efeitos mensuráveis.

Um contraexemplo merece atenção: ChatGPT teve adoção explosiva nos Estados Unidos, aparentemente contradizendo a tese de resistência ocidental. A reconciliação possível está na distinção entre iA conversacional (texto, sem corpo físico) e robôs humanóides. O uncanny valley opera com mais força quando há presença física. Aceitar um assistente de texto não equivale a aceitar um androide em casa. A resistência ocidental parece ser mais específica do que genérica — dirigida a corporificação humanóide, não a inteligência artificial em abstrato.

O que emerge dessa análise não é determinismo cultural, mas condicionamento probabilístico. A cultura funciona como prior bayesiano: estabelece probabilidades iniciais que a experiência individual depois ajusta. Crianças expostas predominantemente a narrativas de robôs benignos começam com priors diferentes de crianças expostas a narrativas distópicas. Isso não as programa — pessoas transcendem suas culturas o tempo todo — mas inclina estatisticamente.

A iA não chegou a um mundo neutro. Chegou a um mundo onde Prometeus e Astro Boys já habitavam o imaginário coletivo. Essas figuras não são mera decoração nostálgica — são componentes de sistemas cognitivos que condicionam, embora não determinem, reações iniciais. Entender esses condicionamentos não garante sucesso de mercado, mas ignorá-los garante surpresas. A pergunta “máquinas podem ter alma?” não é técnica. É o tipo de pergunta que, ao ser respondida, articula premissas sobre o que significa ser humano — e cada cultura carrega suas próprias respostas de fundo, muitas vezes sem saber que as possui.


ousadia criativa. precisão estratégica. – por kim

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Renato Kim Panelli

Renato Kim Panelli
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Empreendedor e engenheiro com mais de 25 anos de experiência integrando tecnologia, estratégia de negócios e inovação. Combina expertise técnica em engenharia de materiais com formação em administração pela Babson College (MBA) e conhecimento jurídico através de graduação em direito.

Fundou a MBi – Mind Blowing Innovative, especializada em soluções baseadas em IA e estratégias de dados para transformação de negócios. Histórico comprovado em liderança de P&D, tendo gerenciado portfólios superiores a $250.000 anuais e desenvolvido produtos que geraram receitas acima de $15 milhões.

Pesquisador com publicações e patentes em tecnologia automotiva, com expertise em metalurgia do pó, planejamento estratégico e design de algoritmos.