Carrinho Sempre Cheio

Era sábado. O homem acordou às seis da manhã sem motivo. Nenhum alarme, nenhum compromisso. Só o corpo treinado para não descansar. Pegou o celular antes de abrir os olhos por completo. Trinta e sete notificações. Duas promoções relâmpago. Um cupom de desconto que expirava em quatro horas.

Ele se levantou, fez café numa máquina que custou oitocentos reais (comprada num impulso de Black Friday, usada em média duas vezes por semana), e abriu três aplicativos de compras enquanto o café escorria. Não precisava de nada. Mas precisar é um conceito que perdeu utilidade.

O apartamento contava a história melhor do que ele poderia. Sessenta metros quadrados ocupados por coisas que pareciam ter sentido no momento do clique. Uma fritadeira elétrica ainda na caixa. Dois pares de tênis de corrida para alguém que não corre. Uma estante com livros que funcionam como decoração. E aquele aspirador robô, que vagava pelo chão como um animal doméstico sem afeto, limpando superfícies enquanto o resto apodrecia.

A semana inteira tinha sido assim: trabalhar para comprar, comprar para sentir, sentir por trinta segundos, e depois voltar a trabalhar. O ciclo se repetia com a regularidade de uma máquina. E era isso. Ele tinha se tornado uma máquina de processar desejos fabricados.

Byung-Chul Han escreveu que os indivíduos da sociedade do desempenho se comportam diante das coisas como consumidores, não como usuários. A distinção importa. O usuário se relaciona com o objeto. O consumidor se relaciona com a transação. O objeto é pretexto. O que se compra de verdade é a breve anestesia de uma vida que perdeu o eixo.

O homem do sábado (que poderia ser qualquer um de nós) não consome produtos. Consome promessas. Cada compra carrega uma narrativa embutida: a de que algo vai mudar depois do pagamento. O tênis novo trará disciplina. O livro trará profundidade. A fritadeira trará saúde. Nada disso se materializa, porque a função do consumo contemporâneo é manter o ciclo girando, e não entregar o que promete.

A engrenagem funciona assim: o vazio existencial gera ansiedade. A ansiedade busca alívio imediato. O mercado oferece alívio em forma de produto. O produto gera satisfação fugaz. A satisfação evapora. O vazio retorna, agora com juros. E o cartão de crédito absorve o impacto.

Não é coincidência que as maiores taxas de depressão e endividamento caminhem juntas. O consumo opera na mesma lógica da dependência: cada dose precisa ser maior que a anterior. O primeiro iPhone era uma revolução. O décimo quinto é uma obrigação silenciosa. Ninguém sabe explicar por que troca, mas troca.

Jacques Ellul observou, décadas atrás, que o trabalho moderno se justifica apenas pelo consumo. Trabalha-se para viver, mas vive-se apenas para consumir. O lazer concedido ao ser humano é exclusivamente o lazer do consumidor. As funções de criar, julgar, contemplar, desapareceram na maré de bens materiais. Essa frase foi escrita nos anos 1960. Envelheceu como profecia.

O homem do sábado terminou o café. Colocou no carrinho online um fone de ouvido com cancelamento de ruído. Cem avaliações cinco estrelas. Entrega em dois dias. Ele já tinha um fone funcionando. Mas este era novo. E “novo” é a palavra que o mercado transformou na mais potente droga do vocabulário humano.

Existe, porém, uma possibilidade que o algoritmo não consegue vender. A possibilidade de parar. De olhar para o carrinho cheio e reconhecer que o vazio não está nas prateleiras, mas em quem compra. De perceber que a contemplação, o silêncio, a atenção demorada sobre uma única coisa (uma árvore, um verso, o rosto de alguém) produz mais presença do que qualquer produto com frete grátis.

Han propõe a inatividade contemplativa como antídoto. A capacidade de dizer não. De ser lento. De permanecer. Aristóteles chamava isso de vida mais elevada. Não a que acumula, mas a que observa. Heidegger chamava de habitar: ficar tempo suficiente para que o sentido apareça.

O homem do sábado podia ter saído para caminhar sem destino. Podia ter ficado sentado olhando a cidade acordar. Podia ter feito nada. E nesse nada, talvez encontrasse alguma coisa que oitocentos reais numa máquina de café não conseguem comprar.

Ele finalizou a compra. O fone chegaria na segunda.

O carrinho ficou vazio por alguns minutos. Depois, voltou a encher.

ousadia criativa. precisão estratégica. – por kim.

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Renato Kim Panelli

Renato Kim Panelli
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Empreendedor e engenheiro com mais de 25 anos de experiência integrando tecnologia, estratégia de negócios e inovação. Combina expertise técnica em engenharia de materiais com formação em administração pela Babson College (MBA) e conhecimento jurídico através de graduação em direito.

Fundou a MBi – Mind Blowing Innovative, especializada em soluções baseadas em IA e estratégias de dados para transformação de negócios. Histórico comprovado em liderança de P&D, tendo gerenciado portfólios superiores a $250.000 anuais e desenvolvido produtos que geraram receitas acima de $15 milhões.

Pesquisador com publicações e patentes em tecnologia automotiva, com expertise em metalurgia do pó, planejamento estratégico e design de algoritmos.