Dose Mensal

Eram dez da noite quando ele publicou a palavra “gratidão” pela terceira vez no mês. A luz do monitor iluminava o rosto de um homem de 38 anos, sozinho num andar inteiro de escritório, com uma caixa de rivotril na gaveta e um café frio ao lado do teclado. O post rendeu 347 likes antes da meia-noite. Ele foi dormir sentindo que existia.

Na manhã seguinte, o despertador tocou às seis. Ele repetiu a dose.

Nassim Nicholas Taleb escreveu, em The Bed of Procrustes (Random House, 2010), que os três vícios mais nocivos são heroína, carboidratos e salário mensal. A frase incomoda porque compara uma droga letal a um depósito bancário. Mas Taleb sabia o que fazia. Heroína destrói o corpo. Carboidratos corroem devagar. O salário mensal faz algo que as outras duas não conseguem: passa por virtude. É o único vício que a sociedade aplaude, que os pais recomendam, que o mercado exige. E é precisamente por isso que anestesia a vontade sem que o dependente perceba. Quem depende de uma dose fixa de dinheiro no quinto dia útil organiza a vida inteira em torno dela. O apartamento financiado, o carro em 60 parcelas, o plano de saúde que cobre a terapia necessária para aguentar o emprego que paga o plano de saúde. Um circuito fechado onde a saída é também a entrada.

O LinkedIn é o pátio de recreio dessa clínica.

Abra o feed num domingo à noite. Você encontrará centenas de profissionais publicando variações da mesma confissão travestida de conquista. “Saí da minha zona de conforto” (digitado de um sofá). “Aceitei o desafio de liderar uma equipe de 12 pessoas” (o desafio, convenhamos, foi do RH que precisava preencher a vaga). “Depois de muita reflexão, decidi aceitar uma nova posição” (o recrutador ligou na terça, ele disse sim na quarta, a reflexão durou o almoço). Cada post segue a mesma engenharia emocional: uma adversidade controlada, uma virada motivacional, um agradecimento genérico a mentores invisíveis. A plateia aplaude. O algoritmo distribui. A dopamina chega.

Ninguém escreve o que aconteceu de verdade.

Ninguém publica que aceitou a promoção porque o aumento cobria exatamente a parcela atrasada. Que a mudança de emprego foi fuga, não estratégia. Que o cargo novo reproduz os mesmos problemas do anterior, com um crachá diferente e uma mesa dois metros mais perto da janela. O LinkedIn transformou a vulnerabilidade numa técnica de engajamento. Você confessa uma fraqueza calibrada para parecer corajoso, e o público retribui com likes que confirmam: sua gaiola é bonita, continue nela.

Charles Bukowski passou catorze anos trabalhando nos correios americanos antes de largar tudo para escrever. Viveu de cerveja e apostas. Dormiu em quartos que cheiravam a mofo. Nenhum recrutador o procurou no LinkedIn. E quando finalmente publicou, escreveu sobre o que ninguém queria ler: a brutalidade do trabalho sem sentido, a solidão dos que obedecem horários, a lenta morte de quem troca tempo por salário e chama isso de carreira. (A ironia é que a ruptura de Bukowski só funcionou porque o editor John Martin, da Black Sparrow Press, lhe ofereceu cem dólares por mês para que escrevesse em paz. Outra dose mensal, só que de um mecenas. Até a liberdade tem seu dealer.) O que Bukowski diagnosticou, porém, sobrevive à contradição: a maioria das pessoas não trabalha para viver. Trabalha para não ter que decidir como viver.

O salário mensal resolve esse problema. Ele decide por você.

Decide onde você mora, quanto pode gastar, quando pode viajar, o que pode comer, a que horas deve acordar. E quando alguém questiona o arranjo, a resposta padrão é “responsabilidade”. Como se liberdade fosse irresponsabilidade. Como se arriscar fosse defeito de caráter. O LinkedIn reforça essa narrativa a cada scroll. Os algoritmos premiam quem exibe estabilidade. Os recrutadores procuram “trajetórias consistentes”. O mercado pune desvios. E assim, a terceira adição de Taleb segue sendo a única socialmente aplaudida, recomendada por headhunters e celebrada com champanhe corporativo toda vez que alguém assina um contrato de trabalho.

Mas existe algo que o feed nunca mostra. Existe o momento em que o sujeito fecha o notebook, apaga a luz do escritório e fica parado no estacionamento vazio olhando para o próprio carro sem vontade de entrar nele. Existe a pergunta que surge às três da manhã e não cabe num post de LinkedIn. Existe a distância entre o que ele publica e o que ele sente. Essa distância é o custo real da dose mensal.

Não existe cura fácil para esse vício, e seria desonesto fingir que existe. O empreendedorismo motivacional que o próprio LinkedIn vende como redenção é outra dose, só que embalada diferente. Nomear a dependência ajuda, mas nomear não é sair. É olhar para a seringa e reconhecê-la como seringa. O que vem depois, ninguém sabe dizer com certeza. E talvez esse silêncio seja mais honesto que qualquer post de “gratidão”.

O dia em que alguém publicar no LinkedIn a frase “estou preso e não sei sair” sem filtro, sem call to action, sem foto de paisagem ao fundo, talvez a plataforma sirva para algo. Até lá, o feed continuará sendo o que sempre foi: uma sala de espera onde viciados aguardam, juntos e sorrindo, a próxima dose.

ousadia criativa. precisão estratégica. – por kim.

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Renato Kim Panelli

Renato Kim Panelli
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Empreendedor e engenheiro com mais de 25 anos de experiência integrando tecnologia, estratégia de negócios e inovação. Combina expertise técnica em engenharia de materiais com formação em administração pela Babson College (MBA) e conhecimento jurídico através de graduação em direito.

Fundou a MBi – Mind Blowing Innovative, especializada em soluções baseadas em IA e estratégias de dados para transformação de negócios. Histórico comprovado em liderança de P&D, tendo gerenciado portfólios superiores a $250.000 anuais e desenvolvido produtos que geraram receitas acima de $15 milhões.

Pesquisador com publicações e patentes em tecnologia automotiva, com expertise em metalurgia do pó, planejamento estratégico e design de algoritmos.