Quantas pessoas são necessárias para derrubar um governo? A intuição sugere que seria preciso convencer metade da população, talvez mais. Um número vasto, improvável, quase mitológico. Erica Chenoweth, cientista política da Harvard Kennedy School, passou duas décadas investigando essa pergunta com rigor estatístico. A resposta que encontrou cabe em uma fração: 3,5% da população de um país, mobilizada de forma não violenta em um único pico de participação. No banco de dados original, nenhuma campanha que atingiu esse patamar fracassou. Dados atualizados, cobrindo até 2014, registram taxa de sucesso de quase 89% acima desse limiar.
Chenoweth chegou ao dado por um caminho improvável. Formada em estudos sobre terrorismo na Universidade do Colorado, ela acreditava que revoluções exigiam armas. As referências eram a Revolução Francesa, a Argélia, a guerrilha latino-americana. Em 2006, durante um workshop do International Center on Nonviolent Conflict em Washington, Maria Stephan, pesquisadora e diretora de política do instituto, a desafiou: se você duvida da resistência civil, construa um estudo capaz de provar que está certa. Chenoweth aceitou. Ao longo de dois anos, as duas construíram o NAVCO (Nonviolent and Violent Campaigns and Outcomes), um banco de dados com 323 campanhas de resistência entre 1900 e 2006. Cada caso foi codificado por método dominante, escala de participação e resultado. A conclusão reverteu a hipótese inicial: campanhas não violentas alcançaram seus objetivos em 53% dos casos, contra 26% das campanhas armadas. O estudo foi publicado na International Security em 2008, e o livro Why Civil Resistance Works saiu pela Columbia University Press em 2011, ganhando o Grawemeyer Award de 2013.
O número 3,5% surgiu depois. Em 2013, durante um workshop, ativistas fizeram a pergunta direta: quantas pessoas são necessárias? Chenoweth dividiu o número de participantes no maior evento de cada campanha pela população total do país no ano final. Usou sempre a estimativa mais conservadora. O resultado: toda campanha no banco de dados que mobilizou ao menos 3,5% da população em um evento de pico venceu. E todas eram não violentas. Na prática, isso significa algo concreto. Nas Filipinas em 1986, cerca de 2 milhões de pessoas ocuparam a Avenida Epifanio de los Santos, em Manila, aproximadamente 3,6% de uma população de 56 milhões. O ministro da Defesa e o vice-chefe das Forças Armadas desertaram. Marcos fugiu para o Havaí em quatro dias. Na Sérvia em 2000, entre 500 mil e 1 milhão de pessoas tomaram Belgrado após dois anos de organização descentralizada pelo movimento estudantil Otpor. A polícia se recusou a disparar. Milošević renunciou em 48 horas.
O mecanismo por trás desses episódios não é sentimental. Quando uma parcela expressiva da população se mobiliza sem armas, soldados e policiais enfrentam um dilema operacional diferente do que enfrentariam contra insurgentes armados. Vizinhos, parentes, colegas de escola estão do outro lado da barricada. As defecções dentro das forças de segurança ocorreram em 52% das campanhas não violentas bem-sucedidas, conforme o artigo original de Chenoweth e Stephan na International Security (2008). Um estudo de modelagem publicado no PLOS ONE em 2022 encontrou que a persuasão direcionada a membros do aparato do regime superou estratégias de mobilização em massa na geração de defecções, mesmo quando o tamanho do movimento era pequeno. Gene Sharp, o teórico que sistematizou 198 métodos de ação não violenta, argumentava que todo poder político se apoia em pilares institucionais: militares, judiciário, mídia, empresariado. Retirar a cooperação desses pilares desestabiliza qualquer regime, independentemente da sua capacidade coercitiva.
Antes de tomar o 3,5% como fórmula, convém conhecer seus limites. O dado é descritivo, não prescritivo. Chenoweth mesma adverte que 83% dos movimentos não violentos bem-sucedidos nunca atingiram o patamar. O número marca uma fronteira de quase certeza, não um requisito mínimo. E há falhas notáveis. Bahrein em 2011 mobilizou entre 150 mil e 300 mil pessoas numa população cidadã de cerca de 568 mil, uma proporção que chega a 50% dependendo da estimativa, mas tropas sauditas intervieram para sustentar a monarquia. Hong Kong em 2019 levou cerca de 27% da população às ruas e não conquistou nenhuma das cinco demandas após a imposição da Lei de Segurança Nacional por Pequim. Em ambos os casos, o fator determinante foi a intervenção militar estrangeira. Há um dado mais inquietante. Desde 2010, a taxa de sucesso de campanhas não violentas caiu de 65% nos anos 1990 para menos de 34%. A participação média de pico recuou para 1,3%. Regimes autoritários aprenderam a estudar a pesquisa e adaptaram suas defesas: vigilância digital, repressão seletiva, uso de mercenários estrangeiros, desinformação coordenada.
A regra dos 3,5% não é uma receita. É uma evidência empírica que revela algo sobre a mecânica do poder: ele depende de cooperação, e cooperação pode ser retirada. Chenoweth prepara um novo livro, provisoriamente intitulado The End of People Power, sobre a erosão da eficácia da resistência civil na era digital. O fato de que autocratas estudam essa pesquisa para se proteger levanta uma pergunta que o dado sozinho não responde: quem mais deveria estar prestando atenção.
ousadia criativa. precisão estratégica. – por kim.