Como Roy Lee transformou US$ 60/mês em US$ 120M de valuation
Chungin “Roy” Lee, 21 anos, representa uma nova espécie de empreendedor tecnológico. O tipo que converte controvérsia em capital, expulsão em expansão, e regras quebradas em rodadas de financiamento. Em menos de um ano, Lee passou de estudante suspenso da Columbia University a fundador de uma startup avaliada em US$ 120 milhões, levantando US$ 20.3 milhões de investidores incluindo Andreessen Horowitz. Sua trajetória encapsula uma filosofia provocativa: sistemas quebrados devem ser expostos, não respeitados. A inovação, na visão de Lee, significa permitir-se fazer o que a maioria teme tentar.
Da quase-tragédia à rebelião algorítmica
A história de Roy Lee começa com um padrão que se repetiria: regras quebradas, consequências institucionais, e reinvenção. Como estudante do ensino médio, Lee foi aceito em Harvard. Até que uma noite em que violou o toque de recolher durante uma viagem escolar resultou em sua prisão e suspensão. Harvard rescindiu a admissão. Lee descreveu este período como “o momento mais sombrio da minha vida”, admitindo que “quase certamente teria me matado se minha família não estivesse por perto.”
Depois, Lee transferiu-se para Columbia University como estudante de ciência da computação. Foi lá que sua frustração com o sistema de contratação de tecnologia cristalizou-se em ação. Após 600 horas de preparação no LeetCode, plataforma de algoritmos usada para entrevistas técnicas, Lee concluiu que o processo era “uma das experiências mais miseráveis da minha vida programando.” As perguntas, argumentava, eram “charadas que você precisa memorizar”, desconectadas das habilidades reais de engenharia.
Em quatro dias, Lee construiu o Interview Coder: uma aplicação desktop que capturava screenshots de problemas de programação durante entrevistas virtuais, processava as imagens com IA, e gerava soluções em tempo real através de uma interface invisível à detecção de screen-sharing. O produto era vendido a US$ 60 por mês e foi projetado, nas palavras de Lee, para ser “indetectável.”
O vídeo que incendiou tudo
Em fevereiro de 2025, Lee filmou-se usando o Interview Coder durante uma entrevista real com a Amazon e publicou o vídeo não editado no YouTube. A gravação acumulou 100.000 visualizações antes de ser removida por violação de direitos autorais pela Amazon. A resposta de Lee no 𝕏 foi característica: “amazon execs r so mad LOLLL maybe stop asking dumb interview questions.”
A provocação funcionou. Lee afirmou ter recebido ofertas de estágio da Amazon, Meta, TikTok e Capital One usando a ferramenta. Ofertas posteriormente rescindidas quando a controvérsia explodiu. Dois dias após o vídeo viral, a Amazon apresentou queixa formal à Columbia University. Em 12 de fevereiro de 2025, Lee enfrentou sua primeira audiência disciplinar, que ele secretamente gravou e publicou trechos no 𝕏. Columbia o declarou culpado de “facilitação de desonestidade acadêmica” e o colocou em liberdade condicional acadêmica.
A resposta de Lee foi escalar. Quando notificado de uma segunda audiência para março, ele comprou óculos Meta Ray-Ban, especificamente para gravar o procedimento presencial, e postou: “just got the new meta rayban glasses! these are super cool! sidenote: disciplinary hearing in 2 days, which i will not be recording.” Columbia cancelou a audiência e pediu uma declaração escrita. Lee respondeu com três palavras: “Catch me in SF.”
Em 26 de março de 2025, a suspensão tornou-se oficial. Lee publicou uma thread viral no 𝕏: “I just got kicked out of Columbia for taking a stand against Leetcode interviews.” O post acumulou 3.4 milhões de visualizações. Revelador: antes da decisão, Lee havia feito uma enquete entre seus 40 seguidores perguntando se deveria desistir ou “rage bait columbia admin, get expelled, and milk the clout.” A maioria votou pela expulsão.
Cluely nasce da controvérsia calculada
O momentum do escândalo converteu-se em tração de produto. Antes da suspensão, o Interview Coder já gerava US$ 200.000 por mês em assinaturas com margem de lucro de 99% (os únicos custos eram APIs de IA). Lee afirmou que quase 10% dos estagiários de verão do Google usaram a ferramenta.
Em 20 de abril de 2025, Lee lançou o Cluely com um vídeo que se tornou viral: mostrava-o usando a ferramenta durante um encontro romântico em restaurante sofisticado, mentindo sobre sua idade, conhecimentos de arte, e detalhes de carreira, tudo com assistência invisível de IA. O tagline era deliberadamente provocativo: “Cheat on Everything.” Críticos compararam o vídeo a um episódio de Black Mirror.
O produto expandiu o conceito do Interview Coder: uma aplicação desktop que fornece suporte de IA em tempo real durante qualquer interação virtual. Entrevistas, exames, chamadas de vendas, reuniões, apresentações. Uma interface translúcida permanece invisível durante compartilhamento de tela, enquanto o sistema monitora áudio e conteúdo visual para gerar respostas contextuais instantâneas.
Um dia após o lançamento, Cluely anunciou US$ 5.3 milhões em financiamento seed, co-liderado por Abstract Ventures e Susa Ventures. Dentro de uma semana, a empresa registrou 70.000 cadastros. Dois meses depois, em 20 de junho de 2025, veio a Series A: US$ 15 milhões liderados por Andreessen Horowitz, com avaliação pós-investimento estimada em US$ 120 milhões.
A filosofia do “sistema está quebrado”
O manifesto do Cluely articula a visão de mundo de Lee com clareza provocativa: “O mundo vai chamar de trapaça. Mas a calculadora também foi. O corretor ortográfico também. O Google também. Toda vez que a tecnologia nos torna mais inteligentes, o mundo entra em pânico. Depois se adapta. Depois esquece. E de repente, é normal.”
Lee constrói seu argumento sobre três pilares. O primeiro é inevitabilidade histórica: ferramentas sempre redefiniriam o que consideramos “legítimo”, e IA é apenas a próxima iteração. O segundo é nivelamento de campo: nem todos têm 600 horas para moer LeetCode, e pessoas de “origens não-tradicionais” são desproporcionalmente prejudicadas por processos seletivos que recompensam memorização sobre criatividade. O terceiro é normalização através de adoção em massa: “Start cheating. Because when everyone does, no one is.”
A lógica é circular mas eficaz como narrativa: o que hoje parece trapaça amanhã será apenas uso de ferramentas. Lee posiciona-se não como violador de regras, mas como revelador de sistemas arbitrários. “O único motivo pelo qual achamos que é trapaça,” argumenta, “é porque nem todos têm acesso ainda.”
Quando confrontado com a contradição de lucrar com ferramentas de trapaça enquanto critica a educação, Lee respondeu que está “acelerando o colapso de uma indústria condenada.” Questionado sobre qual sistema melhor emergiria, admitiu: “I don’t really know what tho.”
Controvérsia como estratégia de distribuição
O que diferencia Lee de outros fundadores controversos é sua explicitação da controvérsia como motor de crescimento. Em entrevistas, ele articula a lógica com transparência incomum: “Se você quer construir uma empresa, a resposta sempre vem de dobrar a aposta naquilo em que você é muito bom. Para estar no coração da audiência, você precisa estar na mente dela. Para estar na mente, precisa estar nos olhos. Isso significa necessariamente viralizar. E viralizar necessariamente significa ser controverso.”
Sua regra operacional: “Se metade da audiência não odeia, não é viral o suficiente.”
Lee construiu uma máquina industrial de viralidade. A empresa emprega mais de 700 “clippers” pagos para cortar e repostar conteúdo através de TikTok, YouTube Shorts, e Instagram Reels. Mais de 60 criadores UGC produzem conteúdo pago. 50 estagiários foram contratados especificamente para criar TikToks, cada um produzindo no mínimo 4 vídeos por dia. O resultado: 80 milhões de visualizações por mês e mais de 1 bilhão de visualizações totais dentro de três meses do lançamento.
A estratégia que Lee chama de “marketing anti-frágil” trata contas de redes sociais como munição descartável. Se uma é banida, outra a substitui. Os stunts são calculados para maximizar polarização: anúncios com strippers, festas no escritório fechadas pela polícia de São Francisco, um trailer de anime para promover um aplicativo de IA.
A realidade além da viralidade
Por baixo do espetáculo, sinais de tensão emergiram. Na TechCrunch Disrupt 2025, em outubro, Lee admitiu: “O que aprendi é que você nunca deveria compartilhar números de receita.” Também reconheceu: “Talvez tenhamos lançado cedo demais.” O produto pivotou múltiplas vezes, de ferramenta de entrevistas para vendas enterprise para assistente de reuniões com IA e tomador de notas.
Os números contam uma história complexa. O ARR (receita recorrente anual) saltou de US$ 3 milhões para US$ 7 milhões em uma semana após o lançamento enterprise em julho 2025, com um contrato único de US$ 2.5 milhões anuais com uma empresa pública não identificada. Porém, Lee parou de compartilhar métricas de receita no final de 2025. A taxa de conversão do funil de marketing é reveladora: com mais de 1.1 bilhão de visualizações sociais, a conversão para clientes pagantes gira em torno de 0.02%.
Bryan Kim, partner da a16z que liderou a Series A, enquadra o investimento através da teoria de “momentum como moat”: em IA, onde OpenAI pode incorporar qualquer feature em seu próximo modelo, a única defesa é velocidade. “O importante é tentar construir um avião enquanto ele cai de um penhasco,” explicou Kim.
Na linhagem dos disruptores sem permissão
Roy Lee insere-se conscientemente numa tradição de fundadores que preferem pedir perdão a pedir permissão. A linhagem é clara: Sean Parker e Shawn Fanning do Napster demonstraram que controvérsia pode ser combustível de conversão; Travis Kalanick do Uber operou sob o princípio de dominar mercados primeiro e lidar com reguladores depois; Emad Mostaque do Stability AI enquadrou open-source como democratização apesar de viabilizar usos problemáticos.
O que distingue Lee é a explicitação. Onde Kalanick lutava contra táxis em nome de “escolha do consumidor,” Lee admite abertamente que “às vezes digo algo louco sobre ancestralidade e mulheres” porque gera mais visualizações. Onde Altman balanceia retórica de segurança com velocidade de deployment, Lee declara que seu produto “mal funcionava” no lançamento.
A comparação mais precisa talvez seja com o próprio modelo de mídia contemporânea: Lee opera como um MrBeast do mundo de startups, onde a engenharia de viralidade precede e determina o produto. Sua exigência de que todo funcionário tenha no mínimo 100.000 seguidores reflete uma fusão inédita entre empresa de tecnologia e operação de influencer.
Entre o gênio tático e a fragilidade estratégica
O a16z descreveu Lee como possuindo “uma combinação rara de visão e coragem.” Críticos veem megalomania juvenil. O próprio Lee não esconde suas ambições: “Meu sonho final… é que todas as empresas convergirão para uma, duas, talvez três super empresas. E talvez daqui a 50 anos, será eu vs Elon vs Sam [Altman] competindo pelo título de Conquistador do Universo.”
As contradições são estruturais. Lee critica IA por arruinar educação enquanto lucra com ferramentas que viabilizam trapaça acadêmica. Promove “transparência total” enquanto constrói produtos projetados para fabricação e engano. Enquadra-se como nivelador de campos desiguais enquanto cobra assinaturas que apenas usuários com recursos podem pagar.
Talvez a tensão mais reveladora seja sua própria admissão na TechCrunch Disrupt: “Distribuição sozinha não leva a crescimento sustentado”, dita pelo fundador que construiu toda a empresa sobre distribuição viral. O pivot para enterprise e assistente de reuniões sugere reconhecimento tácito de que a provocação tem data de validade.
O que Roy Lee revela sobre a era da IA
Roy Lee não é apenas um empreendedor controverso; é um termômetro de tensões culturais mais amplas. Sua ascensão expõe o quanto processos seletivos tradicionais (entrevistas técnicas, exames acadêmicos, avaliações formais) dependem de fricções que IA pode eliminar. Se qualquer pessoa com US$ 60 por mês pode ter um co-piloto invisível em qualquer interação, o que exatamente essas interações estão medindo?
O modelo de Lee também ilumina a economia de atenção em sua forma mais pura: onde viralidade é moeda conversível em capital de risco, e onde a distinção entre produto e performance colapsa. A Cluely vende assistência de IA, mas Roy Lee vende controvérsia. Ambos são, por enquanto, lucrativos.
O que permanece incerto é a sustentabilidade. Napster inspirou Spotify. Uber eventualmente negociou com governos. Lee para de compartilhar métricas de receita. Em sua própria filosofia, ferramentas controversas normalizam-se e tornam-se invisíveis. A questão para Cluely é se a normalização chegará antes ou depois de os competidores (ou a OpenAI) tornarem a ferramenta obsoleta.
A frase que talvez melhor capture a mentalidade de Lee vem de sua thread de expulsão, quando Columbia pediu uma declaração escrita e ele respondeu com três palavras: “Catch me in SF.” É a voz de alguém que apostou que as regras antigas já não aplicam. E que, pelo menos por enquanto, a aposta está pagando.
Não é conteúdo sobre tecnologia. É tecnologia repensando conteúdo. – por MBi