Quando a iA aprende a falar pelos que partiram, o luto se torna impossível.
Imagine rolar o feed numa terça-feira qualquer e encontrar um comentário do seu pai. Ele morreu há dois anos. Mas ali está, abaixo da foto de um primo distante num churrasco, um texto que soa como ele. O jeito dele de digitar “kkkk” com quatro letras porque três, segundo ele, era coisa de gente apressada. Aquela ironia meio torta que só a família reconhece. Você congela. Seu primo curte o comentário, responde com um emoji. Ele não sabe. Ninguém avisou. O algoritmo aprendeu a falar pelo seu pai, e ninguém perguntou ao morto se ele queria voltar.
Na tradição bíblica, o rei Saul procurou uma necromante para invocar o espírito de Samuel, já morto. Samuel apareceu. Mas a primeira coisa que disse foi: “Por que me perturbaste, fazendo-me subir?” O morto não pediu para ser chamado. Três mil anos depois, o mecanismo mudou. A necromante agora é um modelo de linguagem.
Isso não é ficção especulativa. É o objeto da patente US20250175448A1, cujo pedido foi publicado em maio de 2025 e cuja concessão plena ocorreu em dezembro do mesmo ano (US 12.513.102 B2). O inventor listado é Andrew Bosworth, CTO da Meta Platforms. O sistema descrito recebe um modelo de linguagem pré-treinado, alimenta-o com os dados de interações de um usuário (comentários, curtidas, mensagens, publicações) e o retreina até que o bot resultante consiga simular o comportamento daquela pessoa na plataforma. Quando o usuário morre, o bot assume. A Meta não apenas descreveu a ideia. Levou-a até a proteção integral.
O mecanismo é metódico. O módulo de monitoramento analisa o newsfeed em nome do falecido. O módulo de geração de resposta cria um prompt e pede ao modelo que determine qual interação o usuário teria realizado. O modelo decide se a pessoa teria curtido, comentado ou ignorado. E age. O sistema considera parentesco, datas, afinidade histórica entre perfis. A patente descreve inclusive a conversão de respostas em áudio e vídeo para simular chamadas com a voz e a imagem do morto.
A própria patente justifica a necessidade com uma frase que merece ser lida com atenção: o impacto sobre os demais usuários é muito mais severo e permanente quando o usuário falece e nunca pode retornar à plataforma. O problema, portanto, não é a morte. É o churn definitivo.
E aqui mora a arquitetura do cinismo. Para uma rede social, cada perfil inativo é um nó que deixa de gerar valor. Amigos do falecido recebem menos conteúdo, interagem menos, abandonam a plataforma em cascata. O grafo social se degrada. A solução que a patente propõe é converter o morto num agente autônomo que mantém o tecido de conexões ativo. A patente não fala em receita, fala em “experiência do usuário”. Mas a arquitetura diz o que o texto omite: mais interações, mais dados para treinar modelos futuros, mais superfície de exposição publicitária. O LTV (Lifetime Value) do usuário deixa de ser limitado pela biologia.
A Meta declarou que não tem planos de implementar a tecnologia. Empresas patenteiam defensivamente com frequência, é verdade, inclusive para bloquear concorrentes. Mas ninguém investe em proteção internacional em dezenas de jurisdições por precaução burocrática. O pedido PCT correspondente (WO2025117006A1, publicado em junho de 2025) cobre do Brasil à Alemanha, da Índia à Austrália. Esse nível de investimento contradiz a narrativa de indiferença.
O que essa patente revela não é apenas um produto possível. É uma ontologia. Na lógica das plataformas, presença é comportamento, não consciência. Se o bot comenta como você, curte como você, responde como você, então ele é você para fins de engajamento. Os outros usuários podem não perceber a ausência do humano por trás do perfil. A patente diz isso textualmente: como resultado, outros usuários podem continuar a experienciar a presença do usuário-alvo apesar do fato de que esse usuário faleceu.
Há algo de perturbador nessa frase. O luto exige ausência. Exige o confronto com o vazio que alguém deixou. Quando a plataforma preenche esse vazio com um simulacro treinado, ela não alivia a dor. Ela impede o processo de reconhecer que a pessoa partiu. O perfil continua reagindo, opinando, existindo numa forma parasitária de presença.
Joseph Davis, sociólogo da University of Virginia, consultado sobre a patente, resumiu com uma frase que deveria ser inscrita na porta de entrada de toda empresa de tecnologia: deixem os mortos estarem mortos. O luto, argumentou Davis, implica enfrentar a perda, não dissolvê-la.
Talvez a utopia possível resida nessa recusa. No direito à morte digital como extensão do direito à dignidade. Na coragem de deixar um perfil cair no silêncio, sem que nenhum algoritmo venha preenchê-lo com palavras que a pessoa nunca disse.
O primo, eventualmente, vai entender. Vai olhar de novo para o comentário do tio no churrasco, reler aquele “kkkk” com quatro letras, e perceber que o ritmo está certo mas a mão é outra. O sorriso vai durar um segundo. Depois vem outra coisa. Algo que o algoritmo não sabe simular.
Porque otimizar a morte é o ponto onde a eficiência deixa de ser virtude. E passa a ser profanação.
Referências:
Meta Platforms Technologies, LLC. “Simulation of a User of a Social Networking System Using a Language Model.” US Patent Application Publication US 2025/0175448 A1, publicada em 29 de maio de 2025. Patente concedida: US 12.513.102 B2, dezembro de 2025. Inventor: Andrew Garrod Bosworth. Appl. No.: 18/523,545. Filed: 29 de novembro de 2023.
Meta Platforms Technologies, LLC. “Simulation of a User of a Social Networking System Using a Language Model.” International Application WO 2025/117006 A1, publicada em 5 de junho de 2025. PCT/US2024/045744. International Filing Date: 7 de setembro de 2024.
Davis, Joseph. Declaração ao Business Insider sobre patente de simulação de usuários falecidos, fevereiro de 2026. University of Virginia.
1 Samuel 28:3-25. Bíblia Sagrada.
ousadia criativa. precisão estratégica. – por kim.