Deuses do Vazio

Imagine a cena. Trinta mil anos atrás, algum lugar na Europa que ainda não se chamava Europa. Um homem senta diante do fogo. A caça foi boa. A barriga está cheia. Nenhum predador ronda a entrada da caverna. Os filhos dormem. A mulher dorme. O vento lá fora faz um barulho que já não assusta porque se repetiu mil vezes.

E então acontece algo que nenhum animal experimenta com a mesma intensidade. O homem olha para as chamas e percebe que não precisa de nada. A fome acabou. O frio foi resolvido. O perigo, afastado. Todos os desejos imediatos foram atendidos. O corpo está satisfeito.

O que aparece nesse intervalo entre um desejo cumprido e o próximo é a coisa mais perturbadora que a consciência humana já produziu. Não é a dor. A dor tem objeto, tem causa, tem direção. O que aparece é o nada. Uma ausência sem contorno. O filósofo alemão que melhor descreveu essa condição escreveu, dois séculos atrás, que a vida oscila como um pêndulo entre a dor e o tédio. Arthur Schopenhauer acrescentou uma observação cortante: depois que a humanidade depositou todos os sofrimentos no inferno, para o céu só restou o tédio.

O argumento merece atenção. Schopenhauer identificou no centro da existência uma força cega, sem propósito, sem destino: a Vontade. Essa força move tudo. O apetite, o desejo sexual, a ambição, o medo. Quando a Vontade encontra um objeto, há dor (porque desejar é sofrer a ausência do que se quer). Quando o objeto é alcançado, a satisfação dura segundos. E quando a Vontade fica sem objeto nenhum, quando não há mais nada a perseguir, o tédio se instala. A existência nua aparece. E ela é insuportável.

A interpretação corrente diz que o ser humano inventou os deuses por medo. Trovão, terremoto, morte, doença. O medo do inexplicável teria gerado as divindades. Mas o medo ainda é desejo. Quem teme a morte deseja viver. Quem teme o trovão deseja segurança. O medo pertence ao polo da dor no pêndulo de Schopenhauer. É ativo, urgente, corporal.

Os deuses nasceram no outro polo.

Nasceram quando a dor cessou e o vazio se instalou. Quando o homem diante do fogo percebeu que estar vivo, por si só, não oferecia sentido. Os rituais, as cosmogonias, as narrativas sobre criação e destruição do mundo são respostas ao tédio, não ao medo. São objetos que a Vontade fabrica para si mesma quando o mundo concreto não fornece mais nenhum. O deus é uma prótese contra o vazio. Uma emergência metafísica produzida por uma consciência que não tolera a própria nudez.

Schopenhauer sabia disso sem usar essas palavras. Quando escreveu que o tédio prova que a existência não tem valor positivo (porque, se tivesse, o simples fato de existir nos satisfaria), ele estava descrevendo o mecanismo exato que produz religião. O tédio é a pergunta. O deus é a resposta fabricada.

E se os deuses mudaram de nome, o mecanismo permanece idêntico. O feed infinito, a notificação que pisca, a série que nunca termina, o algoritmo que antecipa o próximo desejo antes que ele se forme. A economia da atenção é, no fundo, uma economia contra o tédio. O smartphone é o templo portátil do século vinte e um. Cada toque na tela repete o gesto do homem na caverna olhando o fogo e decidindo que precisa inventar algo além do fogo. Os novos deuses têm nomes como engajamento, viralização, dopamina. O pêndulo continua oscilando.

Mas há outra possibilidade dentro da mesma filosofia. Schopenhauer chamou a contemplação estética de Sabbath do trabalho forçado do querer. Quando o sujeito para de avaliar o mundo pelo filtro do desejo (onde, quando, por quê, para quê) e simplesmente observa o que está diante de si, a roda de Ixion para de girar. O pêndulo, por um instante, se suspende. Isso acontece na música, na arte, na observação atenta de qualquer coisa sem a necessidade de possuí-la ou usá-la.

O tédio, nessa leitura, deixa de ser a prisão para se tornar a antecâmara da liberdade. O único espaço onde a consciência pode se desprender da Vontade que a governa. Quem suporta o vazio sem fabricar um deus (antigo ou digital) descobre que o silêncio tem uma textura própria.

O homem diante do fogo. Trinta mil anos depois, o fogo é a tela do celular. A escolha continua a mesma: inventar mais um deus, ou deixar que o fogo, sozinho, baste.

ousadia criativa. precisão estratégica. – por kim.

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Renato Kim Panelli

Renato Kim Panelli
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Empreendedor e engenheiro com mais de 25 anos de experiência integrando tecnologia, estratégia de negócios e inovação. Combina expertise técnica em engenharia de materiais com formação em administração pela Babson College (MBA) e conhecimento jurídico através de graduação em direito.

Fundou a MBi – Mind Blowing Innovative, especializada em soluções baseadas em IA e estratégias de dados para transformação de negócios. Histórico comprovado em liderança de P&D, tendo gerenciado portfólios superiores a $250.000 anuais e desenvolvido produtos que geraram receitas acima de $15 milhões.

Pesquisador com publicações e patentes em tecnologia automotiva, com expertise em metalurgia do pó, planejamento estratégico e design de algoritmos.