A rodada errada

Marcos descobriu na quinta-feira, depois do almoço, que Daniel tinha sido promovido. O e-mail chegou às 14h12, com a foto institucional, o cargo novo, três linhas de elogio do diretor. Marcos releu duas vezes. Depois fechou a aba e abriu a planilha do trimestre, aquela que ele mesmo tinha montado numa madrugada de domingo, com fórmulas aninhadas que ninguém da equipe sabia mexer. Os números estavam impecáveis. Foi exatamente esse o problema.

Há cinco anos Marcos fazia uma planilha mental. Quanto rendia uma hora extra. Quanto valeria entregar o relatório dois dias antes do prazo. Quanto pesaria, na avaliação anual, ter zero atrasos em quarenta e dois meses seguidos. A conta fechava sempre. Era só uma questão de tempo até o reconhecimento chegar. A conta fechava só dentro daquela planilha.

Daniel não fazia planilha nenhuma. Daniel almoçou onze vezes naquele semestre com gente do oitavo andar. Aceitou ir num happy hour da área financeira sem ter nada a tratar com finanças. Mandou mensagem de aniversário para o diretor de operações, depois para a esposa do diretor, depois para a filha que tinha entrado na faculdade. Cada interação parecia inútil isolada. Daniel não estava jogando isolado. Marcos jogava cada semana como se fosse a última. Daniel jogava cada semana como o primeiro sinal das próximas cinquenta.

Aqui mora a parte difícil de admitir. O chefe de Marcos não é vilão. Ele tem metas trimestrais, tem um diretor pegando no pé, tem três posições para preencher e uma equipe que precisa entregar antes do fechamento de novembro. Quando ele olha para o quadro de promoções, ele faz uma conta rápida. Promover Marcos significa tirar Marcos do posto onde Marcos rende como ninguém. Significa treinar substituto, perder velocidade, explicar para o diretor por que o output caiu. Promover Daniel custa pouco em produção e abre uma ponte com o oitavo andar que pode valer caro depois. O chefe não pensou nisso por maldade. Pensou porque é a conta que ele tem que fazer todo trimestre.

Marcos fez tudo certo dentro de uma rodada que ninguém estava jogando. Quanto melhor ele entrega, mais caro fica perdê-lo no posto atual. Trabalhar mais não aumenta a chance de promoção. Diminui. É o tipo de descoberta que estraga o domingo.

O sistema todo gira nessa imobilidade. O chefe não muda porque mudar significa entregar menos no trimestre. Daniel não vira trabalhador braçal porque a rede de contatos é a única alavanca que ele tem. Marcos não para de trabalhar duro porque a entrega é a única visibilidade que ele consegue. Cada um, sozinho, perde se mudar a postura no meio do jogo. O sistema continua girando. Apenas Marcos paga o preço de ter jogado a rodada errada. O escritório inteiro vive nessa paralisia educada, com café requentado e Slack piscando.

A saída não é virar o Daniel. Marcos já tentou, num arroubo de revolta, marcar dois almoços com gente que ele mal conhecia. Saiu constrangido das duas vezes. Performance de cinismo não engana ninguém, e Marcos é ruim de teatro. A saída também não é trabalhar menos. Trabalhar menos só piora a única coisa que ele tem.

A saída é uma pergunta diferente. Marcos sempre se perguntou o que fazer hoje. O relatório, a planilha, a apresentação da próxima reunião. Daniel se perguntava onde aquilo terminava. Daqui a cinco anos, sentado em qual cadeira, com qual rede, com qual conjunto de pessoas que retornam a ligação. A partir desse ponto final, Daniel desenhava de trás para frente. Cada almoço inútil era inútil para a rodada de hoje. Era óbvio para a rodada do quinto ano.

Não há promessa fácil aqui. Marcos não vai virar Daniel num mês, e não deveria. O que ele pode fazer é trocar a aritmética. Em vez de calcular o ganho da próxima entrega, calcular onde ele quer estar quando essa empresa, esse chefe, esse mercado já tiverem mudado três vezes. Olhar para esse ponto e perguntar qual a primeira coisa, hoje, que aproxima dali. Talvez seja um almoço. Talvez seja um curso. Talvez seja, finalmente, deixar de fazer aquela planilha de domingo que ninguém pediu.

O jogo não promete justiça. Ele só registra, ao final, quem lia o calendário e quem lia o relógio. Marcos ainda é o melhor analista da equipe. Vai continuar sendo, por mais um tempo. A diferença é que agora ele sabe o nome do que estava perdendo.

ousadia criativa. precisão estratégica. – por kim.

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Renato Kim Panelli

Renato Kim Panelli
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Empreendedor e engenheiro com mais de 25 anos de experiência integrando tecnologia, estratégia de negócios e inovação. Combina expertise técnica em engenharia de materiais com formação em administração pela Babson College (MBA) e conhecimento jurídico através de graduação em direito.

Fundou a MBi – Mind Blowing Innovative, especializada em soluções baseadas em IA e estratégias de dados para transformação de negócios. Histórico comprovado em liderança de P&D, tendo gerenciado portfólios superiores a $250.000 anuais e desenvolvido produtos que geraram receitas acima de $15 milhões.

Pesquisador com publicações e patentes em tecnologia automotiva, com expertise em metalurgia do pó, planejamento estratégico e design de algoritmos.