Henrique postou às sete e meia da manhã. Até o almoço eram mil e quatrocentos abraços.
O texto ocupava onze parágrafos. Falava em vinte e dois anos de casa. Em três promoções recusadas para não desfazer o time. Em uma reestruturação que sobrou para o lado errado. Mais para o fim aparecia a palavra que dava liga em tudo. Etarismo. O mercado virou cruel com gente da idade dele. Aos cinquenta e oito anos havia se tornado descartável. Pediu, como quem pede pouco, que os pares mais jovens lembrassem disso quando chegassem ao seu turno.
A reação veio em cascata. Outros executivos se reconheceram. Ex-colegas mandaram mensagens privadas com versões da mesma história. Um headhunter compartilhou e disse que o assunto precisava virar pauta. Em vinte e quatro horas a queixa de Henrique era hino, e o hino tinha letra para um tipo específico. O profissional sênior expulso pelo mundo novo, vítima de uma sociedade que não sabe valorizar julgamento e gosto refinado.
Quem trabalhou com Henrique nos últimos cinco anos lembraria de outras cenas. Em 2022 o estagiário levou uma demonstração de uma ferramenta nova para a reunião de produto. Henrique ouviu por dois minutos, cortou com a frase de sempre, na minha experiência isso aqui não funciona aqui, e voltou ao slide. Em 2023 o head de dados mostrou um piloto que reduziria quarenta por cento do tempo de relatório. Henrique perguntou se o auditor ia confiar. Em 2024 a diretora de marketing trouxe um caso em que o concorrente lançou três campanhas no tempo em que eles montavam uma. Henrique disse que pressa era inimiga da marca. Quando saía da reunião, abria o e-mail da secretária pedindo a impressão dos materiais para o dia seguinte.
Agora, no café onde escolheu trabalhar depois do desligamento, Henrique está com o currículo aberto. O genro fez no fim de semana usando uma dessas ferramentas que ele nunca instalou. Henrique tenta editar. Reclama que o sistema não pergunta antes de salvar. Acha que perdeu a versão antiga. Não perdeu. Ela está em outra aba. Ele não sabe que existe outra aba. Pega o telefone para ligar para o genro.
Isso que ele descreve como etarismo tem nome, e o nome é mais antigo. Há quinze anos era recusa. Há dez, conforto. Há cinco, resistência. Hoje, com a iA tendo achatado em meses o que antes levava décadas, virou abismo. O abismo abriu rápido demais para a vaidade acompanhar. Foi mais simples chamar a queda de injustiça do que olhar para os degraus que se recusou a subir.
O que torna a coisa ácida é que o etarismo de verdade existe. Existe na entrevista em que o headhunter pergunta a idade do candidato com voz de pêsames. Existe na vaga que diz energia jovem para não dizer outra coisa. Existe no algoritmo que filtra currículos por ano de formatura. E o etarismo de verdade atinge primeiro quem está alerta, quem se atualizou, quem chegou aos sessenta com fluência maior que muitos quarentões. Esses são os que pagariam menos a tal taxa da experiência se o mercado os deixasse trabalhar. Quando a bandeira é levantada por quem se recusou a aprender, ela perde peso. E quem precisa dela de verdade fica sem palavra para se defender.
Henrique fecha o laptop. Levanta para pagar a conta. O garçom de vinte e poucos anos passa por três mesas com um aplicativo no celular, anota pedidos por voz, manda direto para a cozinha, calcula a comanda dividida em quatro cartões, traz a maquininha. Henrique olha. Pensa que o moço deve ter alguém em casa que faça os documentos para ele. O garçom tem. Chama-se ChatGPT, e ele aprendeu sozinho, num turno de folga, vendo um vídeo no celular que o pai não assiste.
A cena não tem moral. Henrique vai postar de novo na semana que vem. Os abraços vão voltar. Outro hino sairá no LinkedIn, com a mesma letra, mais um curtido, mais uma pessoa que confundiu a porta fechada com o fim do mundo. O mercado vai continuar cruel com quem chegou aos cinquenta sem ter aberto o aplicativo, e vai continuar abrindo espaço para quem chegou aos sessenta tendo aberto. Os dois grupos vão continuar usando a mesma palavra para descrever realidades opostas, e ninguém vai conseguir distinguir nada.
ousadia criativa. precisão estratégica. – por kim.